"DIÁRIO D'UM MÉDICO": UM SUCESSO DA BLACKWOOD'S
MAGAZINE NO BRASIL
Damo-nos por felizes em offerecer aos nossos leitores a traducção deste admiravel quadro da vida domestica dos inglezes, que por toda a Europa tem sido acolhido com igual attenção: em Madrid como em Florença, em França como na Inglaterra, as mesmas lagrimas, o mesmo interesse tem elle excitado. A verdade a mais exacta, o pathetico o mais profundo, todo o romance da vida privada com sua dolorosa realidade, eis o que nelle acharão.
Jornal do Commercio, 1 de fevereiro de 1839.
A REVISTA NACIONAL E ESTRANGEIRA pretende publicar todos os artigos que com este titulo tem sido estampados nos periodicos inglezes, e julgam seus redactores que com isto darão gosto a seus leitores.
Revista Nacional e Estrangeira, agosto 1839, nº4.
Esses foram os termos enaltecedores com que a série "Diário d'um Médico" foi apresentada aos leitores fluminenses. Publicada originalmente na revista escocesa Blackwood's Magazine, "Diário d'um Médico" seguiu a mesma trilha de Saint-Clair das Ilhas[1]: nasceu na Inglaterra, fez parada na França e aportou no Brasil.
Mas qual é a relevância disso para a história da ficção brasileira? A resposta virá de perguntas complementares: o que foram Blackwood's Magazine e "Diário d'um Médico"? Por que essa série foi publicada em periódicos brasileiros? Quem a traduziu para o português?
A primeira notícia quanto à presença de Blackwood's Magazine no Brasil vem da constatação da Profª Marlyse Meyer de que essa revista havia sido "pilhada" por periódicos nossos[2]. Depois, consultando o catálogo de 1842 da extinta "Rio de Janeiro British Subscription Library"[3], soube que Blackwood's Magazine certamente circulou pela corte brasileira. Esses fatos são significativos dada a relevância dessa revista para a imprensa britânica ao longo do século XIX.
Blackwood's Edinburgh Magazine foi fundada em Edimburgo, em outubro de 1817, pelo renomado livreiro e editor escocês William Blackwood, com a colaboração de John Wilson, John Gibson Lockhart e James Hogg. Sua fundação serviu como um contra-ataque dos conservadores (tories) aos reformadores (whigs), uma vez que estes tinham como expressão crítica máxima um outro periódico de fundamental importância, a Edinburgh Review. A rivalidade política era acompanhada pela literária, sendo que, de fato, política e literatura eram as colunas mestras dessas duas revistas. A crítica (fundamentada ou não) era o meio mais eficaz de se erguer e destruir reputações, criar polêmica e aumentar o interesse dos leitores, o que significava, por sua vez, ampliar a venda e conquistar sucesso comercial.
Blackwood's Magazine foi ininterruptamente publicada até 1980, sempre sob a direção da família Blackwood. No século XIX, essa revista adquiriu posição de vanguarda no periodismo britânico, expandindo seu raio de alcance da pequena Edimburgo para outros países como França e Estados Unidos, além da Índia, então possessão britânica, e o Brasil.
Blackwood's era publicada mensalmente e trazia, em suas pouco mais de cem páginas, artigos e ensaios sobre assuntos contemporâneos – política, economia, história –, além de crítica literária, poesia e ficção. No que se refere à literatura, Blackwood’s inovou quanto à forma da revista literária. Com o passar do tempo, foi recebendo influência de outros periódicos literários que também processavam mudanças[4]. Porém, Blackwood's permaneceu como líder do processo de formação da moderna revista literária. Excluiu de suas páginas as antigas listas de nascimentos, mortes, casamentos, partidas de navios, canções e charadas, apresentando basicamente poesia, ficção serializada, e crítica séria e competente sobre diversos assuntos de interesse contemporâneo. Enfim, Blackwood's impulsionou a estruturação do padrão moderno de revista literária enquanto miscelânea de textos destinados ao entretenimento e à formação crítica do leitor.
Publicou escritores já renomados à época como Walter Scott, George Elliot[5], Anthony Trollope, Edward Bulwer Lytton e Joseph Conrad. Mas também, graças à persistente política do anonimato, deu vez a escritores iniciantes que tentavam a sorte na carreira literária como é o caso de Samuel Warren, autor de "Passages from the Diary of a Late Physician", série que, no Brasil, recebeu o título de "Diário d'um Médico".
Blackwood's Magazine também serviu diretamente aos interesses gerais da firma “House of Blackwood” da qual era, sem dúvida, o carro-chefe. Em suas páginas encontram-se anúncios de publicação, em livro, de ficção presente no próprio corpo da revista, bem como de outras publicações que a editora da firma estava lançando ao público.
Mesmo em sua fase decadente, Blackwood's Magazine continuou a ser uma das mais completas realizações enquanto revista literária, tipo de periódico para cuja formação ela mesma desempenhou papel essencial, o que explica seu valor histórico.
Passando ao Brasil, dentre os textos declaradamente importados de Blackwood's Magazine por alguns periódicos do Rio de Janeiro, na primeira metade do século XIX, "Diário d'um Médico" é o caso mais significativo. Quase toda a série original está traduzida na Revista Nacional e Estrangeira (11 episódios) e no Jornal do Commercio (3 episódios). Seus tradutores foram alguns de nossos precursores ficcionais que também atuavam como jornalistas e políticos, e estavam preocupados em importar modelos culturais europeus que ajudassem a enriquecer nosso incipiente meio sócio-cultural. Foram eles: Julio Cezar Muzzi, João Manuel Pereira da Silva, Josino do Nascimento Silva e Pedro d'Alcântara Bellegarde. Talvez eles tenham se interessado em traduzir "Passages from the Diary of a Late Physician" exatamente pelo sucesso que a série fazia na Europa, ou mais especificamente, na França.
Os 18 capítulos de "Passages from the Diary of a Late Physician" foram publicados anonimamente e em intervalos irregulares em Blackwood's Magazine,de 1830 a 1837. As histórias são independentes entre si, mas têm, como fio condutor e personagem central, um médico que relata casos peculiares testemunhados por ele no acompanhamento de seus pacientes. Os assuntos narrativos são aqueles de comprovada predileção do público. O tema recorrente é a domesticidade, a qual se diversifica em diferentes sub-temas: defesa de vida simples no aconchego do lar burguês, fortemente regulamentada pela moral puritana; oposição entre aristocracia e burguesia; oposição entre a vida no campo (considerada sede da pureza) e na cidade (cujo ícone maior é Londres: sede do vício e do pecado). Há também largo uso de imagens e temas góticos que estão freqüentemente relacionados à pregação moral e à exploração sentimental das situações retratadas. Também é uma constante a defesa da veracidade das histórias através de duas figuras fictícias: a do narrador, que explica como ficou sabendo dos fatos, e a do 'editor', que gerencia intra e extra-texto o avanço narrativo. E muito chama a atenção do leitor de hoje as numerosas e escancaradas falhas no encadeamento dos enredos, como repetições desnecessárias, marcas da escrita corrida e do amadorismo de Warren.
"Passages from the Diary of a Late Physician" alcançou sucesso imediato junto aos leitores britânicos. Por carta, Samuel Warren conta a William Blackwood as discussões calorosas, por ele presenciadas, quanto à possível autoria e à validade moral dos episódios, expressa no destino dos personagens. Houve quem publicasse artigos críticos à série em dois jornais especializados da área médica: Lancet e The London Medical Gazette. A popularidade de "Passages from the Diary of a Late Physician" rendeu-lhe várias edições em livro século afora. E a partir de seu sucesso com essa série e com o romance Ten Thousand a-Year, Warren chegou a rivalizar com Charles Dickens em termos de reconhecimento público.
Assim, mesmo que, ao final do século XIX, a série de Warren tenha recebido críticas procedentes quanto ao seu questionável valor literário[6], o fato é que foi muito lida dentro e fora da Grã-Bretanha. Chegou a ser pirateada nos Estados Unidos e a tradução francesa acompanhou a publicação dos episódios na Blackwood's.
Sua escala na França só não passou despercebida graças às notas críticas e inconformadas que o próprio Warren acrescentou na publicação em livro de "Passages from the Diary of a Late Physician". É por essas notas que sabemos que o tradutor francês fez várias alterações na estrutura da série, como um todo, e no texto individual de cada episódio. Incluiu nomes de personagens e explicações de alguns aspectos culturais da vida inglesa, tais como leis e costumes da classe alta; omitiu e/ou substituiu partes discursivas e digressivas por diálogos; omitiu a figura do 'editor', entre outros. Todas essas mudanças estão na versão brasileira, o que me permite afirmar que "Diário d'um Médico" aproxima-se mais de Souvenirs d'un Médecin do que de "Passages from the Diary of a Late Physician". Como conseqüência da intermediação francesa, os episódios de "Diário d'um Médico" se desenrolam com maior dinamismo e coesão. Há menor ênfase moral visto o narrador perder espaço, com a eliminação de seus recorrentes discursos, em favor da maior participação dos personagens através de diálogos. Trata-se de uma melhoria estrutural levada a termo pelo tradutor francês e mantida, com poucas outras contribuições, pelos tradutores brasileiros. Basicamente, o que se nota é que o gótico permanece elemento forte na série, mas sem exploração de imagens sobrenaturais, como no original, e sim mais voltado para a figuração de um estado de espírito mórbido e melancólico.
Esse encaminhamento particular do gótico mais aquelas mudanças estruturais à francesa combinavam com o tipo de literatura produzida no Brasil. Tanto nossos primeiros ficcionistas como os poetas da primeira fase do nosso romantismo fizeram largo uso de melancolia, do grotesco e de imagens sombrias, voltadas para o culto da morte. A religiosidade, o espiritualismo e o sentimentalismo também são fortes marcas desse período da literatura brasileira e, não por acaso, são elementos integrantes do contexto ideológico da série. E o que é particularmente interessante é que "Diário d'um Médico" foi publicado no Jornal do Commercio e na Revista Nacional e Estrangeira, periódicos que tinham grande participação do nosso mais importante precursor ficcional - João Manuel Pereira da Silva, cuja ficção encontra-se imersa naquele ambiente gótico e marcadamente sentimental.
Nesse sentido, "Passages from the Diary of a Late Physician"/ "Diário d'um Médico", enquanto um caso de empréstimo por periódicos brasileiros, de ficção publicada originalmente na Blackwood's Magazine,contribui com mais um elemento para a história da relações literárias entre Brasil – França – Grã-Bretanha. E Blackwood's Magazine parece assumir a posição de fornecedora de modelo ficcional aos nossos primeiros escritores de ficção cuja produção, com todas as falhas que nela podemos apontar, estava certamente preparando o terreno para os futuros romancistas brasileiros.
Referências Bibliográficas:
ALENCAR, José de. Como e Porque sou Romancista. Salvador, Progresso, 1995. (Série Miniatura, nº31).
Catalogue of the Rio de Janeiro British Subscription Library. Smith, Elder and Co., Lon-don, 1842.
GRAHAM, Walter. English Literary Periodicals. New York, Thomas Nelson & Sons, 1930.
MEYER, Marlyse. O que é, ou quem foi Sinclair das Ilhas? Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo: USP, 1973, nº14. p. 37-63.
_____. Voláteis e Versáteis, de Variedades e Folhetins se fez a Chronica. In: Boletim Bibliográfico da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, 1985, nº1-4, p.17-41.
OLIPHANT, M. & PORTER, Mary. Annals of a Publishing House. William Blackwood and His Sons. Their Magazine and Friends. 3 vols. Edinburgh and London: William Blackwood and Sons, 1897-1898.
[1] Uma das fontes formativas de José de Alencar. Ver José de Alencar. Como e Porque sou Romancista. Salvador, Progresso, 1955. (Série Miniatura, nº31). Ver desvendamento do trajeto de Saint-Clair, da Inglaterra ao Brasil, em Marlyse Meyer, "O que é, ou quem foi Sinclair das Ilhas?" IN: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, USP, 1973, nº14. Artigo republicado em Folhetim: uma História. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
[2] Voláteis e Versáteis, de Variedades e Folhetins se fez a Chronica. In: Boletim Bibliográfico da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo, 1985, vol.46, nº1-4.
[3] Catalogue of the Rio de Janeiro Subscription Library. Smith, Elder and Co., London, 1842. (exemplar pertencente à Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo)
[4] Exemplo: Blackwood's Magazine recebeu especial influência de New Monthly Magazine and Literary Journal. Periódico mensal, fundado por Henry Colburn em 1814 com o título New Monthly Magazine and Universal Register, muito voltado para a política. Em 1820, com a entrada de Thomas Campbell como diretor, o título mudou para New Monthly Magazine and Literary Journal. A mudança de título significou uma reformulação do próprio conteúdo dessa revista: passou a ser mais literária e menos política. A partir dessa data, New Monthly Magazine tornou-se um dos periódicos literários britânicos mais progressistas, contendo, cada vez mais, resenhas, artigos originais e poesia. Nesse contexto, New Monthly Magazine logo passou a publicar contribuições assinadas, ainda que o nome do autor fosse apenas indicado por suas iniciais.
Walter Graham. English Literary Periodicals. New York, Thomas Nelson & Sons, 1930. p.284-6.
[5] Estreou como escritora na Blackwood’s com a publicação em série de “The Sad Fortunes of the Rev.Amos Barton” em janeiro/1857.
[6] M.Oliphant. Annals of a Publishing House. William Blackwood and His Sons. Their Magazine and Friends. Edinburgh and London, William Blackwood and Sons, 1897-1898. Vol.2, Cap. XIII, p.28.